Uma pesquisa sobre gerenciamento inteligente de redes 5G/6G para sistemas de transporte — combinando fatiamento de rede, aprendizado de máquina, inteligência de borda e segurança para que a infraestrutura atenda a cada aplicação veicular conforme sua criticidade.
Carros autônomos, ambulâncias conectadas, streaming no banco de trás — todos compartilham a mesma rede. Mas um alerta de colisão não pode "esperar na fila" atrás de um vídeo do YouTube.
Frenagem cooperativa, alerta de colisão — precisam de latência menor que 5ms e confiabilidade de 99,999%. Um atraso de meio segundo pode custar vidas.
Navegação em tempo real, platooning de caminhões, semáforos inteligentes — precisam de dados contínuos e atualizados, mas toleram mais latência.
Streaming 4K, videoconferência no veículo — precisam de muita banda, mas um buffer de 2 segundos não é crítico.
Imagina uma rodovia onde as faixas se reconfiguram automaticamente conforme o trânsito. Em horário de pico, a faixa de emergência se expande. À noite, mais espaço vai para carga pesada. Fatiamento de rede (network slicing) é exatamente isso — mas na infraestrutura digital.
Latência ultra-baixa, prioridade máxima
Dados contínuos, prioridade alta
Alta banda, tolerante a atrasos
A tese constrói progressivamente um ecossistema que vai dos fundamentos de simulação veicular até a segurança de inteligência artificial distribuída em infraestrutura crítica de transporte.
A pesquisa percorre três eixos que se entrelaçam ao longo da tese. O primeiro é a infraestrutura de comunicações móveis B5G/6G, com fatiamento de rede e inteligência de borda para atender aos requisitos heterogêneos de aplicações em sistemas inteligentes de transporte (ITS). O segundo é a inteligência artificial — classificação supervisionada, aprendizado federado e otimização de hiperparâmetros — que permeia quase todas as contribuições como ferramenta para tornar o gerenciamento das fatias adaptativo e proativo. O terceiro é a segurança: a introdução de IA distribuída na infraestrutura cria novas superfícies de ataque, exigindo modelagem de ameaças, avaliação de ataques adversariais e defesas Bizantino-robustas. Sistemas que operam em infraestrutura crítica não podem ser apenas inteligentes — precisam ser resilientes.
O ponto de partida foi entender como simular redes veiculares de forma fiel à realidade — com modelos de propagação de sinal, mobilidade de veículos e interferência. Publicado como capítulo de livro pela Springer, esse trabalho contribuiu para a compreensão dos fundamentos de simulação em redes veiculares.
Capítulo de livro — Springer, 2019Usando dados de GPS dos ônibus do Rio de Janeiro (31 milhões de registros), selecionamos duas regiões com alto volume de tráfego — Lagoa Rodrigo de Freitas e Av. Ayrton Senna — e cruzamos os dados com registros de congestionamento publicados pela Prefeitura no X (antigo Twitter). Treinamos 6 classificadores de ML para detectar congestionamentos sem sensores dedicados.
Acurácia > 80% com 6 classificadoresDescobrimos que mudanças no trânsito alteram o perfil de comunicação nos servidores de borda. Em vez de sensores caros, a própria rede de comunicação móvel pode funcionar como sensor implícito do contexto veicular — usando dados de telemetria já disponíveis na infraestrutura.
RF e DT com acurácia > 85%Construímos um framework baseado em SDN (Software-Defined Networking — redes de comunicação definidas por software), uma tecnologia que permite programar e reconfigurar a rede de forma centralizada e dinâmica. O framework organiza a rede em fatias dedicadas para cada tipo de aplicação (segurança, eficiência, entretenimento). Quando o trânsito muda, os algoritmos de controle redistribuem recursos automaticamente. Cenário com 158 veículos em emulação realística.
PDR de 85% vs. 50% da referência (+35 p.p.)Criamos o AIMS (Adaptive and Intelligent Management of Slicing — Gerenciamento Adaptativo e Inteligente de Fatias) — um sistema que analisa telemetria da rede em tempo real e classifica o impacto sobre as fatias ativas em 4 níveis: Adequado, Alerta, Severo e Crítico. Em vez de esperar a rede falhar, o AIMS antecipa a degradação e fornece sinais para que reconfigurações proativas possam ser acionadas antes que o problema afete o usuário. A validação experimental concentrou-se na função de classificação de impacto das políticas de fatiamento da rede.
CatBoost: 94,8% de acurácia (F1-Macro 0,948)Centralizar dados de todas as RSUs (Road-Side Units — unidades de borda instaladas ao longo das vias, que conectam veículos à rede) é caro e compromete privacidade. Com aprendizado federado, cada RSU treina com seus próprios dados e compartilha apenas o que aprendeu — não os dados brutos. Testamos com 3 RSUs ao longo de um corredor urbano, em cenários com dados heterogêneos entre os pontos.
Degradação < 0,5 p.p. vs. centralizadoA distribuição do treinamento cria uma nova superfície de ataque: um nó comprometido pode executar envenenamento de modelo (model poisoning) combinando label-flipping direcionado com amplificação de gradientes. Na prática, o atacante manipula o classificador para que situações críticas sejam classificadas como normais — suprimindo todas as ações de resposta para aplicações safety-critical.
Diagnosticamos a vulnerabilidade em 144 configurações experimentais (3 arquiteturas neurais × 6 estratégias de agregação × múltiplos fatores de ataque) e avaliamos defesas de agregação Bizantino-robusta (Krum e Trimmed Mean). O resultado: sem defesa, a taxa de misclassificação atinge 100%; com Krum, cai a zero — demonstrando que a segurança da camada de agregação é requisito para implantação segura de IA distribuída em infraestrutura crítica.
Sem defesa: 100% de engano | Com Krum: 0%4 artigos publicados, 2 submetidos e 1 em preparação — em veículos IEEE e Springer. Os botões em cada publicação direcionam para o artigo original. Perfil completo no ORCID e Google Scholar.
IEEE International Wireless Communications and Mobile Computing Conference (IWCMC), 2021 — Saraiva & Campos
IEEE 94th Vehicular Technology Conference (VTC2021-Fall), 2021 — Saraiva, Girardi & Campos
Springer — Smart and Digital Cities: From Computational Intelligence to Applied Social Sciences, 2019 — Saraiva & Campos
IEEE International Symposium on Computers and Communications (ISCC), 2026 — Saraiva & Campos
IEEE Vehicular Technology Conference (VTC2026-Spring), 2026 — Saraiva & Campos
Manuscrito em revisão para submissão, 2026 — Saraiva & Campos — Avaliação de segurança de IA distribuída em 144 configurações experimentais
Todos os experimentos são reprodutíveis. Código disponível no GitHub e CodeOcean.
É a capacidade de dividir uma única rede física em múltiplas redes virtuais isoladas, cada uma otimizada para um tipo de uso. Pense em faixas exclusivas numa rodovia: uma para ambulâncias (latência ultra-baixa), outra para caminhões (dados contínuos), outra para carros de passeio (uso geral). Cada "fatia" tem seus próprios recursos garantidos, sem interferir nas outras.
Os experimentos foram conduzidos em ambiente de emulação realístico (Mininet-WiFi + SUMO), que reproduz fielmente o comportamento de redes sem fio e mobilidade veicular. Os algoritmos operam na camada de controle (SDN), que é independente da tecnologia de acesso via rádio. A validação em testbeds 5G reais é o próximo passo natural.
É uma forma de treinar modelos de inteligência artificial sem centralizar dados. Cada ponto de acesso na via (RSU — Road-Side Unit) treina com seus próprios dados e compartilha apenas o que aprendeu (parâmetros do modelo), não os dados em si. É como vários hospitais que colaboram numa pesquisa médica compartilhando conclusões, mas nunca os prontuários dos pacientes.
Quando distribuímos o treinamento entre múltiplos pontos, criamos uma nova superfície de ataque: um ponto comprometido pode "envenenar" o modelo global, fazendo o sistema classificar situações críticas como normais. No contexto veicular, isso significa que o sistema poderia deixar de reagir quando uma fatia de segurança está falhando — com consequências potencialmente fatais. A pesquisa demonstrou que defesas como Krum reduzem essa taxa de engano a zero.
O doutorado foi realizado no Programa de Pós-Graduação em Informática (PPGI) da UNIRIO, sob orientação do Prof. Dr. Carlos Alberto Vieira Campos. A defesa ocorreu em março de 2026, com aprovação pela banca composta por pesquisadores da UNIRIO, UNICAMP e UFRJ.
Sim. Todo o código está disponível no GitHub e CodeOcean. Os datasets são abertos. Os experimentos usam seeds determinísticos para reprodutibilidade. O ambiente computacional está documentado nas tabelas da tese.
Ao distribuir o treinamento via aprendizado federado, criamos uma superfície de ataque que vai além das ameaças tradicionais de rede. O ataque investigado na tese é o envenenamento de modelo (model poisoning): um participante malicioso troca os rótulos dos seus dados (fazendo "crítico" virar "normal") e amplifica os pesos enviados ao servidor para dominar a agregação. O resultado é que o sistema para de detectar situações de risco — em infraestrutura de transporte, isso poderia impedir a rede de reagir quando um veículo autônomo precisa dela.
As defesas avaliadas são estratégias de agregação Bizantino-robusta (Krum e Trimmed Mean), que filtram atualizações maliciosas antes da agregação — funcionando como um firewall para modelos de IA. A tese quantifica o risco operacional em 144 configurações e demonstra que, com Krum, a taxa de engano cai a zero. A lógica é a mesma de um pentest: diagnosticar a vulnerabilidade, medir o impacto e validar a defesa.
Doutor em Informática pelo PPGI/UNIRIO e consultor em Segurança da Informação. A pesquisa de doutorado aborda o gerenciamento inteligente do ciclo de vida de fatias de rede em cenários de comunicações móveis B5G para sistemas inteligentes de transporte — um problema que demandou contribuições em múltiplas frentes: identificação de contexto veicular, orquestração de recursos com redes definidas por software, classificação de impacto com aprendizado de máquina, escalabilidade com aprendizado federado na borda, e segurança contra ataques adversariais em IA distribuída.